Como você se sentiria se um diretor de cinema Francês resolvesse filmar uma história tipicamente brasileira (olha que até aí, tudo bem)? E que esse diretor decidisse fazer com um elenco quase completamente formado por não brasileiros. E que a personagem principal, com mais tempo de tela, carioca no roteiro, tivesse o sotaque de um português de Portugal. E que ele fizesse a filmagem inteira na França. E que as cenas do Carnaval brasileiro fossem todas captadas em New Orleans, com máscaras venezianas. E que o filme deste diretor estreasse no mundo inteiro, colecionando premiações, antes de estrear no Brasil.
E no topo de tudo isso, descobrissem que sua atriz principal é dona de uma coleção de comentários racistas, misóginos e problemáticos, feitos há poucos anos.
Pois é. Esta tempestade (de merda) perfeita se abateu sobre Emilia Pérez, o filme com produção da Netflix que chega aos cinemas hoje. O filme está concorrendo a inacreditáveis 13 Oscars.
Não posso atestar a qualidade do filme. Não vi. Mas quem viu, é quase unânime em dizer que é uma película equivocada, mal dirigida, mal montada, e com, no máximo, uma ou duas sequências com algum valor.
O que espanta nesse caso não é como um produto tão fraco possa ter chegado tão longe. É a falta completa de senso que os produtores e promotores da Netflix ao abraçar um filme cheio de tantas complicações como se fosse a nova vinda de algum profeta.
A Netflix vem querendo o Oscar de melhor filme há algum tempo, e ainda não deu sorte, nem quando merecia, com o belíssimo O Ataque dos Cães. Mas jogar o peso de sua grana para elevar uma obra a um status que ela não merece só causa aquela sensação de que “quanto maior a altura…”.
Há uma máxima que diz que o marketing consegue fazer muita coisa. Só não consegue transformar um produto ruim em um bom. Uma marca até consegue (como qualquer ser humano) convencer muita gente por pouco tempo. Ou pouca gente por muito tempo. Mas muita gente, por muito tempo…
De franco favorito, Emilia Pérez virou um constrangimento. Das 13 estatuetas a que concorre, talvez apenas Zoe Saldaña saia com a sua. Karla Sofia Gascón teve que ser retirada da campanha, tamanha sua inabilidade com a mídia. O que poderia ser uma noite histórica para a comunidade trans, pode resultar em uma mancha na sua carreira.
Eu coloco a culpa na verdadeira invasão de “gestores comerciais” nos cargos mais altos de produtoras culturais. Nos tempos antigos, os chairmen das grandes produtoras eram sujeitos meio malucos, meio visionários, que às vezes enterravam um monte de grana indo atrás do sonho de diretores que sonhavam com Ben-Hurs, Casablancas ou 2001s… Nem sempre dava certo, mas não é à toa que essa época ainda é chamada da Era de Ouro do cinema.
Hoje os gestores ocupam a cadeira principal, e geralmente vêm do varejo ou da área financeira. Tem amor zero pelo material que vendem. Cortam, retalham e cancelam ao seu bel prazer (David Zaslav não me deixa mentir). Se metem nas produções, e aprovam projetos olhando para planilhas. Premiações só tem valor se convertidas em dinheiro. Se dependesse somente deles, o Oscar teria uma categoria “Melhor Roteiro feito por AI”, sem nenhum constrangimento.
Acho uma pena que Emilia Pérez tenha se convertido em um punhado de oportunidades perdidas. Mas como bom brasileiro, acho bom que essa combustão espontânea tenha acontecido no ano que Ainda Estou Aqui, que fez tudo certo, esteja no páreo.
Que aprendamos. Nós, com os acertos. Eles, com os erros. O mundo, com a arte. Precisamos dela mais do que nunca.
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