Estamos em uma Síndrome de Estocolmo com as Big Techs.

October 1, 2025

Eu sofro de um problema esquisito com o Instagram.

Pode parecer meio bobo a princípio, e muita gente pode conviver com ele sem saber. Mas no momento que ele fica aparente, incomoda paca.

Meu perfil aparece online em momentos que eu não estou.

Não sei quando começou, nem quantas vezes ao dia. Só sei que quando acordo, meu avatar me avisa que estive online há duas horas, três horas. O Rodrigo real, que ficou velho, dorme a noite toda como um reles mortal, e meu eu virtual lá, firme e forte, varando madrugadas, às duas, três da manhã sem se cansar, 5 dias por semana.

Venho acompanhando o fenômeno há anos. Sem mudança.

Acabei me tornando um técnico empírico da ferramenta, na minha busca por informações. Já tirei os perfis de clientes do telefone, já troquei senha, já impedi o aplicativo de operar em segundo plano. Desliguei o desktop. Fechei navegadores. De nada adianta. O Rodrigo virtual tem um caso crônico de insônia.

Daí entra a Meta .

Eu não pedi ajuda dez vezes. Foi bem mais que isso. Mandei mensagens, procurei telefones (que inexistem) e principalmente busquei na internet. Zuckerberg só faltou gravar um vídeo me falando “chola mais” ou dizendo que vai anotar meu problema ali no caderninho do “foda-se”.

O que descobri foi um verdadeiro exército de pessoas passando pelo mesmo problema em todos os cantos do mundo, sem nenhuma tentativa de solução por parte da empresa.

Tenho clientes que passam por situações parecidas. Cada um com sua reclamação (algumas até mais graves). Gente que gasta dinheiro todo mês para usar suas ferramentas e que é solenemente ignorado.

Corta para o relacionamento com a Amazon, que depois de anos de convívio, resolve avisar que se eu quiser evitar ver meus filmes e séries sendo mais interrompido por comerciais do que quando assistia ao Telecine, tenho que pagar R$10,00 a mais por mês.

Dia desses me mandou uma pesquisa de satisfação, sobre a qual me debrucei na esperança de poder vocalizar meu desconforto. Quinze minutos de respostas chatas sobre a dificuldade que tenho em achar algo que queira ver (tenho dois neurônios operacionais, Jeff), nenhuma pergunta sobre a opinião de ter um contrato violado.

O Google, que surgiu como a resposta para qualquer pergunta que se tivesse sobre algo que poderia estar na internet, se converteu na tataravó de todas as listas telefônicas. Um grande catálogo que entrega relevância a quem paga mais, sem te responder a absolutamente nada.

Tem as AIs que respondem qualquer coisa pra qualquer pessoa, incluindo quando sugerem que adolescentes deveriam tirar suas próprias vidas.

Esses são apenas exemplos banais sobre coisas corriqueiras. Vai ser difícil encontrar qualquer ser humano usuário das redes que não tenha tido um dissabor com elas, sem ter se sentido largado. Mas não as deixamos.

Me pergunto sobre a conveniência desse relacionamento. Uma rede como as da Meta, que vivem de propalar aos quatro cantos seu nível de engajamento, com um caminhão não contabilizado de gente que sofre de narcolepsia internética, vagando pelas noites enquanto suas contrapartes reais dormem. Quem me garante que meu alter ego noturno não navega, clica, visita perfis e gera um engajamento (e grana pra Meta) sem meu controle? Se uma pessoa a cada 100 tiver esse problema, o que significa em uma rede de bilhões de contas?

Desde sempre aprendemos a desconfiar de quem nos vende um carro, um apartamento, um saco de açúcar. Mas entregamos todos os nossos dados a essas empresas sem uma gota de saudável ceticismo. Apresentamos seus relatórios aos clientes como se tivessem acabado de serem escritos no alto do Monte Sinai. Ignoramos outras formas de conexão, as priorizamos em nossas relações.

Será pela suposta gratuidade (ou quase isso) dos serviços? Será que (como já disseram) que não paramos de usar porque não somos clientes, e sim produtos? Produtos tem produtores. Será que temos permissão para agir fora dos seus desígnios?

A situação é como se uma empresa entregasse todo os dias um pacote de biscoito na porta de nossas casas, e sua embalagem viesse repleta de anúncios. O biscoito é gostoso, mas pesquisas mostram que tem ingredientes que viciam, e fortes indícios de que causa a morte de uma parcela não desprezível de quem os come. A fábrica se recusa a responder essas questões, sob a alegação implícita de que “é de graça, e ela atende a gente demais para se preocupar com isso”.

Mas a gente continua comendo o biscoito. E dando pros nossos filhos.

No momento da história em que a palavra liberdade tem sido mais usada em vão, é bom se perguntar: que liberdade é essa?

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